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Como manter a calma

Lina Távora

Sim, temos emoções e a vida é cheia de contratempos, mas como manter a tranquilidade mesmo em momentos de turbulência? 

O primeiro passo é não criar expectativas sobre fatos e pessoas. Como o Estoicismo nos adverte, devemos manter a nossa harmonia com a natureza, não esperando que o que acontece externamente a nós seja de qualquer outra forma do que do jeito que é. É preciso ter calma e bondade para respeitar e administrar os nossos sentimentos e, assim, agir de forma estratégica. 

Epicteto, o filósofo que foi servo durante boa parte de sua vida e depois tornou-se um mestre estoico, tem uma passagem que descreve bem essa relação entre o que vivenciamos externamente, sem expectativas irreais, e como devemos responder internamente, mantendo a nossa mente calma.

"Quando você está a ponto de realizar uma ação, recorde-se que tipo de qualidade ela é. Se você vai aos banhos, coloque ante a sua mente o que acontece no banho – a água se despejando sobre alguns, outros sendo atirados nela, outros resmungando, outros roubando; e você então estará atuando de forma mais segura se disser prontamente para si mesmo: 'Eu desejo me banhar e quero manter a minha vontade em harmonia com a natureza'. E assim, faça o mesmo com todas as coisas que você vier a realizar. Desta forma, se algo vier a prejudicá-lo no decorrer do seu banho, você estará pronto para dizer: 'Eu não queria apenas me banhar, mas manter a minha vontade em harmonia com a natureza; e não serei capaz de fazer isso se perder o meu controle emocional com isto que está acontecendo” – Epicteto, O manual para a vida

O que Epicteto faz é prever o que irá acontecer, colocando de forma consciente em sua mente a natureza do local ao qual ele se desloca. Assim, com essa prática e aceitação prévia, ele não mais perderá a sua calma interior quando qualquer uma dessas coisas - que são bem prováveis - aconteça. Nossa vida contemporânea está repleta de exemplos como esse: enfrentaremos congestionamento nas horas de maior movimento; voos serão atrasados ou cancelados, crianças vão reclamar na hora de sair do parquinho ou o seu pedido irá faltar na lanchonete exatamente na sua vez. 

Mesmo assim, poderemos manter a tranquilidade em nossa alma. Não somos seres isolados, pelo contrário, somos membros de uma grande comunidade irmandade. Assim, o Estoicismo não espera que fiquemos calmos apenas nas condições ideias, em nossa casa ou sozinhos, mas principalmente quando enfrentamos turbulências - seja advindas de fatores externos ou de atitudes de pessoas que nos deparamos em nossos dias.  

Tão potente quanto essa lição do mestre Epicteto, temos também à nossa disposição um ensinamento de Marco Aurélio na mesma linha, mas que foca especificamente nas relações pessoais.

"Inicie a manhã dizendo para si mesmo: hoje devo cruzar meu caminho com os intrometidos, os ingratos, os arrogantes, os traiçoeiros, os invejosos e os mal-humorados. Tudo isso lhes afeta pelo fato de serem ignorantes do bem e do mal" – Marco Aurélio, Meditações, II, 1

Se meditarmos sobre essas duas citações, eliminaremos grande parte das nossas inquietações internas, pois estaremos preparados para o que possa acontecer em relação a fatos e a pessoas durante os nossos dias.

Ao trabalharmos com esse processo de previsão, treino e aceitação, passamos por três conceitos importantes do Estoicismo: 1) Viver de acordo com a natureza, Premeditatio Malorum e Amor Fati .

Viver de acordo com a natureza é o lema estoico, que nos ensina que somos seres racionais e sociáveis. Se somos racionais, podemos levar as nossas impressões à razão e compreender que nada acontece para nos prejudicar, mas porque simplesmente as coisas ocorreram daquele jeito. Se somos seres sociais, sendo criados para o bem comum, não adianta querer se isolar ou não compreender que as pessoas são como são porque não sabem, como colocou Marco Aurélio na citação anterior, distinguir o bem do mal. 

“Aprenda sobre a vontade da natureza. Estude-a, preste atenção nela e, então, torne-a sua” – Epicteto

O Premeditatio Malorum é a previsão dos males. É a prática de antecipação do pior que pode acontecer. Ao treinarmos isso em nossas mentes, conseguimos vivenciar os sentimentos de forma moderada e racional, e quando eles acontecerem no "mundo real", vamos saber como responder com equilíbrio.

"A preparação mental é crucial para manter a calma e não permitir que aborrecimentos previsíveis perturbem nossa serenidade e equilíbrio interior" – Pigliucci e Lopez, A handbook for new stoics

O Amor Fati é a aceitação do destino exatamente como ele é. É o exercício de aprender a não ser simplesmente levado pelos fatos externos, mas admiti-los como são e, a partir daí, tomar as ações que cabem a nós - sempre com Justiça, Sabedoria, Coragem e Temperança.

“Pode parecer paradoxal, mas a aceitação estoica realmente lhe dá força para superar os desafios. A passividade surge mais frequentemente do medo do que da aceitação” – Matthew Van Natta, The beginner’s guide to stoicism

Euthymia

 

Para alcançar a calma estoica, é preciso praticar esses conceitos constantemente. A euthymia (tranquilidade da alma) pode vir mais fácil para algumas pessoas, mas deve ser buscada por todos nós. Não devemos nos sentir podados ou menos capazes de alcançá-la. 

 “O que tu queres, pois, é grande, de máxima importância e próximo de um deus: não ser abalado. Os gregos chamam este estado estável da alma de euthymia” – Sêneca, Da tranquilidade da alma

 O destino, ou a fortuna como chamam os estoicos, está aqui para nos surpreender das mais diversas formas. Não negamos privilégios ou que a dor e a perda possa chegar mais perto de algumas pessoas do que de outras, mas se estamos nesta vida, estamos propensos a sofrer ainda muitas vezes; a perder amigos, amores e familiares; a ficarmos doentes e velhos; a afastar-nos de trabalhos que ajudamos a construir.

 "Nenhuma época está isenta; no meio de nossos próprios prazeres, brotam as causas do sofrimento” – Sêneca, Carta 91

Vamos nos entregar, então? 

 

Não, vamos suportar, porque é suportável; e vamos aceitar, nos reerguer e transformar cada obstáculo no caminho (mesmo que à primeira vista seja quase impossível acreditar nessa premissa). 

Assim, a força do nosso caráter será testada a cada reviravolta do acaso e, se assim conduzir, nossa alma buscará a quietude mesmo com os golpes do destino. Golpes estes que podem ser recebidos com equanimidade.

O recado principal que queremos passar é de que há sempre espaço para sentir-se pronto e forte para enfrentar os caminhos da Fortuna. Somos iguais nas nossas falhas, mas também na possibilidade de sermos fortes. 

“Para suportar todas as coisas, somos iguais; ninguém é mais frágil do que outro, ninguém mais seguro de sua própria vida” – Sêneca, Carta 91

Seguir o caminho estoico da tranquilidade da alma está disponível para todos – mesmo que venha mais natural para uns do que para outros. Com aceitação e preparação, podemos ser como os bambus ao vento, que balançamos, mas não quebramos e nem caímos por mais fortes que sejam os ventos do destino.

“Levantemo-nos, portanto, para enfrentar as operações da Fortuna, e o que quer que aconteça, tenha a certeza de que não é tão grande como o rumor anuncia que seja” – Sêneca, Carta 91

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