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Como lidar com as emoções‍

Lina Távora

É natural termos emoções! E faz parte da vida nos presentear com desilusões, perdas, dor, amor, felicidade.

“Uma vida longa inclui todos esses problemas, assim como uma longa jornada inclui poeira e lama e chuva” – Sêneca

O que nos coloca em sofrimento é nos deixar levar por sentimentos ruins, como ciúmes, inveja, ganância ou tristeza. Sentimentos e emoções, porém, fazem parte da nossa humanidade e podem ser usados para o bem - nosso e em prol das outras pessoas. Alegria, tranquilidade, empatia, por exemplo, são todas boas emoções. 

Como os estoicos lidam com as emoções? Por mais que no senso comum a palavra “estoico” possa passar a ideia de uma pessoa sem emoções, sentimentos ou impulsos, não é o que a filosofia estoica acredita ou dissemina. 

"Os estoicos são estudantes do que significa ser humano. O lema estoico, viver de acordo com a natureza, nos desafia a aprender como nos encaixamos neste universo em constante expansão. Isso inclui todas as interações estranhas e confusas da vida. É verdade que concentramos a maior parte de nossa atenção na ferramenta incrível que é a mente humana, mas entendemos que as emoções fazem parte dessa paisagem mental. Os estoicos dão às emoções o que merecem. Nós simplesmente não acreditamos que devemos muito a eles" - Matthew Van Natta, em Stoic Emotions...All Three of Them

Para Nancy Sherman, professora da Georgetown University e autora do livro “Stoic Wisdom: Ancient Lessons for Modern Resilience”, a ideia de que os estoicos não colocam emoção no jogo é uma leitura errada do Estoicismo Antigo. Os estoicos foram os primeiros teóricos da emoção, com vários nuances, detalhando a complexidade da vida emocional. Eles descrevem as “proto-emoções” que sentimos e não podemos controlar. De fato, eles acreditam que algumas emoções mais violentas, como raiva e medo, nos fazem mal e devem ser administradas. Mesmo assim, eles nos incentivam a cultivar muitas de nossas emoções, transformando-as em “boas emoções” (cuidado, gratidão, respeito, alegria etc.).

“De fato, eles distinguiram entre três tipos de emoção: boa, ruim e indiferente” – Donald Robertson. 

A Carta 23 de Sêneca ao seu amigo Lucílio traz uma versão sobre a alegria na filosofia estoica. Claro, não devemos nos enganar, o filósofo não está falando de uma alegria superficial ou de risadas sem motivos, mas de uma alegria da alma. Poderíamos compreender essa alegria como quietude ou equanimidade, como o poder de focar nas coisas que estão sob o nosso controle ou mesmo como a determinação de não colocar nossa alegria em coisas inúteis.

“Você pergunta qual é o fundamento de uma mente sã? É não encontrar alegria em coisas inúteis. Eu disse que era o fundamento; é realmente o pináculo”  - Sêneca

"Aprenda a sentir alegria", afirma Sêneca, mas, mais uma  vez, não uma alegria que depende dos dons da fortuna, de esperanças futuras, de prazeres efêmeros ou de situações inconstantes.

“A própria alma deve ser feliz e confiante, elevada acima de todas as circunstâncias” - Sêneca

A verdadeira alegria não vem fácil, é seguida de questionamentos e provém de ações corretas. Nossas ações! A verdadeira alegria vem do nosso próprio “depósito”, como coloca Sêneca. Está dentro de nós, por mais simples que pareça. Está em aceitar as coisas como elas acontecem, manter a tranquilidade e ao mesmo tempo transformá-las da melhor forma possível a seu favor. É seguir esse caminho, sem muito zigue-zague.  

“Você me pergunta o que é esse bem real e de onde vem? Eu vou te dizer: vem de uma boa consciência, de honrosos propósitos, de ações corretas, de desprezo aos presentes do acaso, de um modo de vida sereno e tranquilo, que só segue um caminho” - Sêneca

Dessa forma, o que queremos da prática do Estoicismo é nos tornar menos suscetíveis às emoções doentias, mais propensos aos sentimentos saudáveis, mais conscientes do presente e mais resiliente. As emoções não saudáveis eram chamadas pelos estoicos de paixões, que englobavam desejos e emoções. Ser Estoico não é não ter emoções, não é suprimi-las ou muito menos ignorá-las. É identificá-las em seu surgimento e, se for o caso de serem prejudiciais (paixões), transformá-las em emoções saudáveis (eupatheiai) – o que era um importante passo do treinamento em Estoicismo. É importante pensar e praticar essa diferença entre substituir uma emoção de tentar reprimi-la. Reprimir um sentimento não resolve nada. 

"Não se pode superar o sofrimento o diminuindo, ele me lembrou. Supera-se o sofrimento aceitando e descobrindo o que fazer com ele. Não se pode mudar o que é negado ou minimizado. E, logicamente, muitas vezes, preocupações que parecem ser triviais são manifestações de preocupações mais profundas" - Lori Gottlieb, Talvez você deva conversar com alguém

É preciso examinar, investigar, indagar por que certo sentimento ruim ocorre, de onde ele vem e o que ele pode nos ensinar. Assim, com essa prática ficará mais fácil o caminho da substituição das emoções ruins pelas boas.

Quando sentimos emoções ruins…

Quase sempre, o primeiro impulso de resposta a uma situação não nos guiará para a direção correta. Antes de reagir aos acontecimentos, com muito ímpeto e pouca razão, atrase a resposta. Quando a situação aflorar paixões ruins, como raiva, inveja ou ciúmes, é ainda mais importante que a reação seja precedida de um momento de avaliação da questão, assim, atrase a resposta. Quando é raiva ou ira que o outro ou uma circunstância provoca em você, avalie seus sentimentos e atrase a resposta.

“O maior remédio para a ira é o adiamento” - Sêneca

Com esse tempo, devemos deixar a razão agir, devemos ponderar as variáveis da situação, devemos nos perguntar o que está sob o nosso controle e como podemos agir de forma virtuosa. É preciso dar tempo à mente e acreditar na capacidade de retomarmos à razão. 

“Porque quando você ganha este certo tempo, quando reflete antes de reagir, você irá notar que se torna mais fácil controlar as próprias emoções” - Epicteto

Como podemos "atrasar a resposta" quando estamos com sentimentos ruins nos perturbando, Pigliucci e Lopez dão algumas dicas práticas e simples:

“Conte até vinte, repasse mentalmente o alfabeto, respire fundo pelo diafragma, peça licença para ir ao banheiro ou saia para dar uma volta no quarteirão – o que quer que funcione para colocar alguma distância cognitiva entre sua ‘paixão’ (de novo, no sentido estoico de uma emoção não saudável) e o que você fará a seguir. Você não se arrependerá”.

Para viver uma vida boa

Não é possível evitar os obstáculos no caminho. A vida é cheia deles. É parte da vida humana em sociedade a dor, as perdas, enfim, os contratempos. Mas, mesmo assim, é possível viver uma vida feliz, uma vida tranquila, uma vida com Eudaimonia

Um dos princípios de vida estoico é a eudaimonia (εὐδαιμονία). A eudaimonia, que muitas vezes é traduzida simplesmente como felicidade (e que assim pode causar uma confusão com esse sentimento passageiro de prazer em relação a eventos agradáveis), vai além!

“Na Grécia antiga, o termo usado para definir o mais alto grau de felicidade humana era eudaimonia, que basicamente significa ‘ser habitado por um bom daimon’, ou seja, ter uma espécie de guia espiritual criativo divino tomando conta de você” - Elizabeth gilbert, em A grande Magia

A eudaimonia é viver uma vida próspera, uma vida que floresce, é priorizar e vivenciar um sentido de satisfação e de autêntica felicidade. O filósofo Massimo Pigliucci acredita, na verdade, que a melhor tradução para a palavra seria algo como “viver uma vida que vale a pena ser vivida”.

Viver uma vida com eudaimonia é viver uma vida com virtudes, com excelência, com a busca da Coragem, da Justiça, da Sabedoria e da Temperança - as virtudes cardeais do Estoicismo. É “viver de acordo com a natureza” (lema estoico). E a natureza humana é social e racional.

Viver uma vida com eudaimonia é incompatível com o desejo pelo que não temos ou pela vontade de querer controlar ou modificar o que não está sob a nossa gerência. Assim, a “felicidade estoica” vem de uma vida livre de desejos, de dor, de tristeza ou medo. É uma vida livre de paixões doentias (emoções ruins). 

“Um entendimento livre de paixões é uma cidadela. Não há refúgio mais seguro e inexpugnável. Quem não compreende isso é ignorante. Quem compreende porém não se refugia é infeliz” – Marco Aurélio

Viver com eudaimonia é viver uma vida sabendo diferenciar o que é bom, o que é ruim e o que é simplesmente “indiferente”. É viver em um fluxo de vida sem interrupções (não importa o que aconteça no mundo externo), afinal, se você segue a virtude, a Natureza e a excelência, sua mente estará tranquila, logo, com eudaimonia.

“Lembre-se: a única coisa que você controla é você mesmo. À medida que você aprende a buscar um bom fluxo de vida, olhe primeiro para suas próprias escolhas, antes de julgar as ações dos outros”- Matthew Van Natta, em The beginner’s guide to stoicism: tools for emotional resilience and positivity

Para se alcançar a eudaimonia, mesmo com as adversidades características da vida, os estoicos nos ensinam que é preciso praticar a Apatheia. Hoje em dia, no senso comum, podemos entender a “apatia” como uma característica ruim de passividade, de ausência total de paixões – o que não é exatamente a ideia difundida pelos estoicos.

Mais uma vez ressaltamos que os estoicos não pregavam a ausência de emoções ou sentimentos. Eles, na verdade, sabiam que o que devíamos evitar eram as paixões ruins, insalubres ou não-saudáveis. Assim, de forma mais prática e direta, para os estoicos, o que devíamos fazer é entender que podemos ter um primeiro impulso para algumas paixões ruins (como o medo, por exemplo), pois são naturais dos seres humanos. Podemos e devemos, porém, identificar, controlar e trocar esses sentimentos ruins de forma racional por “emoções” boas (como a cautela, no caso do medo).

Donald Robertson, em seu livro “Pense como um imperador”, afirma que Marco Aurélio descobriu no Estoicismo um “therapeia” – uma terapia moral e psicológica “para mentes perturbadas pela raiva, medo, tristeza e desejos doentios. Eles chamaram o objetivo dessa terapia de apatheia, que não significa apatia, mas liberdade em relação aos desejos e emoções prejudiciais (paixões)".

Apatheia, então, é a quietude advinda do controle ou troca de emoções ruins por boas. É a paz de não se deixar levar por paixões prejudiciais. E é, assim, um constitutivo imprescindível para uma vida boa.

“Pois, na medida em que essas qualidades são mais humanas, também são mais viris. É o homem que possui tais virtudes que tem força, nervo e coragem, e não aquele que está mal-humorado e descontente. Na verdade, quanto mais perto um homem chega em sua mente da liberdade das paixões prejudiciais [apatheia], mais perto ele chega da força. Assim como a tristeza é uma marca de fraqueza, o mesmo ocorre com a raiva, pois aqueles que se rendem a qualquer uma delas foram feridos e se renderam ao inimigo” - Marco Aurélio

Os estoicos importam-se e têm sentimentos. Mas não deixam que essas questões os dominem! Afinal, sabem que devem amar o destino (Amor Fati) e que devem preparar-se para o que possa acontecer. E mais: independente do que aconteça, os estoicos sabem também que devem agir de forma correta e fazer o que é certo. Esse é o caminho. 

Então, não devemos nos sentir menos estoicos por vivenciar emoções – e muito menos acreditar que ser estoico é simplesmente endurecer para a vida. Suportar é diferente de endurecer! Quando pensamos em endurecer nesse contexto, pensamos em se fechar ao mundo, aos sentimentos e a nós mesmos. Porém, como ser justo e empático se não há espaço para os sentimentos? 

Ser forte é ter autoconhecimento, autodomínio e resiliência. É acreditar que ao nos conhecermos podemos identificar (e não negar) as paixões em seus primeiros estados (protoemoções). Não deixe de sentir, não negue as perdas e as dores que o destino nos entrega. Identifique, aceite, transforme cada paixão em um sentimento saudável!

“‘Menos influência.’ Sim, e menos inveja. Olhe ao seu redor e observe as coisas que nos deixam loucos, que perdemos com um dilúvio de lágrimas; perceberá que não é a perda que nos incomoda com referência a essas coisas, mas o conceito de perda. Ninguém sente que elas foram perdidas, mas sua mente lhe diz que foi assim. Aquele que se possui não perde nada. Mas quão poucos homens são abençoados com a propriedade de si mesmo!” - Sêneca

​​O Estoicismo nos chama para “viver bem” nas turbulências e dores e também quando o destino parece nos presentear. Sempre tranquilos, sempre florescendo, sempre em estado de equilíbrio, evitando os momentos de depressão, assim como os de euforia.

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