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Será o Estoicismo a salvação dos nossos problemas?

Eduarda Klann
“Nossa vida é como uma comédia: ninguém repara se foi longa, e sim se foi bem representada.” 

— Sêneca

Representar - aqui está uma palavra que bem define o atual momento da humanidade e que, provavelmente, não tenha nenhuma relação com o sentido que Sêneca quis dar. Infelizmente, analisando a atual conjuntura, representar virou papel principal em detrimento do vivenciar e expressar o seu próprio eu - este, coitado, virou ator coadjuvante no processo de crescimento pessoal. 

E aqui está o motivo principal deste artigo - crescimento pessoal. Em um mundo guiado pelos ditames da terra encantada do Instagram com filtros, ou do Facebook com photoshop no rosto, conseguir encontrar o seu verdadeiro eu parece uma missão impossível até mesmo para o Tom Cruise. 

Se você parar, por um instante, e olhar para todos os contextos que o cerca, você vê pessoas reais ou personagens de uma comédia, que tentam sobreviver ao universo paralelo criado pela personificação da felicidade e da vida perfeita dos universos virtuais?

Aí está o cerne da questão. Em um mundo de tecnologia avançada, onde a realidade virtual  assemelha-se, em grande parte, a nossa realidade concreta, como distinguir o real do imaginário? Como decifrar a realidade que nos rodeia e conseguir ser você mesmo? 

Não podemos negar que somos influenciados por tudo aquilo que nos chega aos cinco sentidos - por mais que tentamos negar essa “intromissão sem permissão”.  Essa influência acaba gerando pessoas desconexas com o real sentido da sua própria existência, condicionando comportamentos e propagando padrões nem sempre realistas.

Você já reparou como a humanidade está cada vez mais acelerada, condicionada pela opinião alheia e incapaz de lidar com as suas próprias frustrações? Esses fatores estão criando pessoas cada vez mais ansiosas, inaptas para lidar com o mundo imprevisível ao qual estão inseridas.

Como (sobre)viver a atual existência?

Depende aonde você quer chegar. Se você gosta de fazer parte do “rebanho”, está tudo certo seguir o fluxo das correntes que ditam o status quo - mesmo que isso signifique abdicar de você e do seu próprio pensamento (aqui vale abrir um parênteses para dizer que cada um é livre para conduzir a sua vida da forma que lhe for certo. Sem julgamentos). Mas se você não se enquadra e está remando contra o fluxo, existe uma luz no brilhante cosmo das filosofias perdidas, e essa luz chama-se Estoicismo. 

Como? Continue seguindo a minha linha de raciocínio que nós vamos longe. O Estoicismo é uma filosofia helenística que nasceu em Atenas, mas foi em Roma que despontou por meio de algumas figuras centrais como Epicteto, Sêneca, Catão e Marco Aurélio. 

Apesar de milênios a parte, ele vai ao encontro do momento pelo qual a humanidade está passando. Vivemos a era tecnológica, guiados por algoritmos e pela tribunal internacional da opinião alheia. Todo esse cenário acaba gerando uma série de conflitos e uma urgência em estar up to date a tudo o que acontece no universo off e online. Soma-se a isso as infinitas atividades e solicitações que nos chegam diariamente por meio de diferentes fontes. Essa é a fórmula geradora de pessoas altamente insatisfeitas com a vida que levam, ansiosas pelo o que o futuro reserva, e dopadas com os ansiolíticos, que vendem a rodo, para conter uma população abalada em suas mais profundas crenças. 

E é nesse ponto que o Estoicismo entra, trazendo um novo olhar sobre a forma como nos posicionamos frente aos problemas e toda as “mazelas” que nos rodeiam, pois encontra no nosso próprio comportamento as respostas para todos esses dilemas cotidianos. 

Para os Estoicos, “conhece-te a ti mesmo”, frase muita conhecida de Sócrates, é o guia para a transformação. A partir do momento que você possui um conhecimento maior sobre as suas emoções, dilemas e ansiedades, você desenvolve o autocontrole sobre as ações em resposta aos problemas mundanos. O foco está centrado nos eventos internos em detrimento dos externos, e como você reagirá a tudo isso. Você passa a perceber o mundo com outros olhos quando entende que você só controla a si mesmo, nada mais, pois tudo o que nos rodeia é um reflexo das nossas próprias escolhas. Todo o resto é incontrolável. 

Outro ponto importante dessa filosofia nos traz ao momento presente, a importância do viver o agora. Vivemos em um mundo que muda a cada minuto, imagina do dia para a noite. Fincar os nossos pensamentos no passado é perder tempo; se preocupar com o futuro é não enxergar a oportunidade de vivenciar o que a vida lhe traz nesse segundo. O agora é o que verdadeiramente importa! As escolhas que você faz neste momento é que serão as bases sólidas do amanhã. Não é sentar e esperar as coisas acontecerem, em uma apatia geral, mas, sim, agir com controle e sabedoria para que a felicidade verdadeira possa florescer. Lembre-se: é de dentro para fora que o mundo se transforma. 

Mas como aplicar o Estoicismo ao nosso dia a dia?

Primeiro, entender que a vida é uma excelente oportunidade de transformação, mas que ela é breve. Toda e qualquer tentativa de barrar esse processo, não surtirá efeito; muito pelo contrário, acarretará em descompassos internos. E como tudo muda a todo instante, devemos parar de tentar nos enquadrarmos aos modelos exteriores de felicidade. Até porque essa exacerbada felicidade externa é resultado de selfies bem tiradas, com retoques de alegria de um editor de imagem artificial. Ou seja, é uma fabricação de egos vazios alimentados por uma vaidade inflada.

Em função disso, vivemos e reagimos a essa irrealidade, atemorizados por não nos enquadrarmos nesse perfil social, e estressados por tentar controlar a opinião alheia. Acabamos por não perceber que o problema não está nesses fatores externos mas na forma como reagimos a tudo isso. Quando entendemos esse processo, nos libertamos da necessidade de agradar a tudo e a todos, e passamos a viver conforme os nossos ideais e valores. 

Isso não quer dizer que não devemos nos posicionar. Até porque, ser Estoico é sinônimo de agir e não de reagir. Praticar essas palavras é compreender as oportunidades que a vida nos apresenta e o que fazemos com cada uma delas, pois o resultado - bom ou mau - depende apenas de nós mesmos. 

Mas para sermos didáticos em relação a essa filosofia, podemos enumerar algumas ações para você refletir sobre o assunto: 

  • Valorize a razão;
  • Emoções destrutivas são reflexos da nossa maneira errada de ver o mundo;
  • Tenha disciplina e mantenha-se firme no processo de transformação;
  • Supere o medo do mundo externo;
  • Encare a realidade como ela é e transforme-a;
  • Viva de acordo com a sua natureza;
  • Nos momentos difíceis, não se deixe levar pelos julgamentos. Mantenha a mente calma e serena;

Em resumo, foque em você, no agora, na sua mudança interna. Comece a viver de forma plena. Desconstrua o seu ego e entenda que nem tudo nessa vida é para você. Perceba que a vida é um somatório de ações e que você é quem conduz o leme do seu barco. 

Tem uma frase na Bíblia que é perfeita para esse momento - “Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém”. Quando você aprende isso, você se livra das amarras que te prendem a uma vida de poréns e passa a viver melhor.

. . .

Publicado originalmente aqui.

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