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3 estratégias da filosofia para superar o fim de um relacionamento

Sabrina Andrade

Segundo conta a história, Zenão de Cítio, a quem o Estoicismo é creditado, começou seus estudos quando perdeu todos os seus bens em um naufrágio.

Em Atenas, sozinho e sem suas mercadorias, ele entrou em uma livraria e se deparou com um livro com ensinamentos de Sócrates. Quando inquiriu o vendedor sobre onde poderia encontrar esse filósofo, ele foi orientado a buscar Crates de Tebas, um filósofo cínico que virou seu mentor.

Anos depois, quando interrogado sobre esse episódio, Zenão respondeu:

“A sorte desejava que eu fosse um filósofo com menos coisas a carregar."

— Zenão de Cítio

Estoicismo é sobre enfrentar adversidades.

Começou com uma adversidade e se transformou em uma filosofia cujo objetivo é auxiliar alguém a enfrentar os problemas — incluindo como superar o fim de um relacionamento que, estranhamente, é muito parecido com um naufrágio.

1. O passado não está na sua esfera de controle

O primeiro ensinamento de Epicteto em seu Manual é este:

"A tarefa principal da vida é esta: identificar e separar as coisas de forma que possa dizer claramente o que é externo e não está sob meu controle e o que é interno e eu efetivamente controlo."

— Epicteto, Manual

Você não pode controlar ou modificar o passado. Intelectualmente você sabe disso, mas emocionalmente, a história é outra e você se acaba em lágrimas a cada 10 minutos. Como, então, transpor esse conceito para o mundo real?

Epicteto, novamente, nos dá as diretrizes:

"Se desde o momento que você se levantar pela manhã você aderir aos ideais, comer e se banhar como uma pessoa íntegra, colocar seus princípios em prática em toda situação que encontrar — assim como um corredor faz quando aplica os princípios da corrida ou um músico ao se apresentar — então você verá o verdadeiro progresso."

— Epicteto, Manual

Sêneca, durante as manhãs, tinha o costume de pensar sobre o dia que teria. O que poderia dar errado, como ele lidaria com essas situações, imaginando quem deveria ser ou como deveria agir. Não sei exatamente como ele conduzia esse processo, nunca tivemos a chance de tomar um café, mas acredito que era de forma similar a Marco Aurélio: lembrando-se de determinadas ideias importantes. Meditações nada mais é do que Marco Aurélio repetindo continuamente os mesmos princípios para si mesmo.

Todos os dias precisamos lembrar que o passado não nos diz mais respeito.

"Lembre-se que o passado e o futuro não têm poder sobre você. Apenas o presente — e mesmo isso pode ser minimizado." 

— Marco Aurélio, Meditações

Como disse Arnold Schwarzenegger, repetição e milhagem são a chave. Uma ideia só passa do plano puramente intelectual para o prático quando ela é constantemente revisitada.

2. Não evite seus sentimentos

Diferentemente da crença popular, adotar uma atitude Estoica não significa negar os sentimentos ou evitá-los. Significa aceitá-los e não deixá-los guiar nossas ações.

A filosofia não está necessariamente preocupada com os sentimentos em si, mas como reagimos a eles.

Como bons seres humanos, evitamos a dor o máximo possível enquanto buscamos qualquer coisa que possa nos dar prazer (oh hello, cupcakes). Esse padrão de comportamento nos leva a ignorar o sentimento, o que o torna ainda maior e, eventualmente, resulta em um momento de descontrole. Então, como resolver o problema?

Nas palavras de Sêneca:

"O homem sábio sente seus problemas, mas os supera."

Ou nas palavras de Marco Aurélio:

“Em todos os locais, em todos os momentos, você tem a opção: De aceitar esse evento com humildade, tratar a pessoa como ela deve ser tratada e aproximar-se deste pensamento com cuidado, de forma que nada irracional surja.”

Sêneca foi exilado de Roma e viveu durante 10 anos na Córsega sem acesso à sua fortuna ou família. Ele ficou incomodado? Provavelmente, dado que escreveu algumas cartas pedindo para ser reintegrado à sociedade romana.

Mas que opção ele tinha senão lidar com a situação? Inclusive, ele escreveu uma carta para sua mãe consolando-a ao invés de ter escrito um lamento de 90 páginas pedindo para ser consolado. Depois de um tempo processando a situação, Sêneca passou a se referir ao exílio como "uma mudança de lugar".

Regulação emocional é o nome que a psicologia dá ao processo de compreender, aceitar e se libertar dos sentimentos. Essencialmente, ela é composta por 4 passos:

  1. Desenvolva consciência sobre o que você está sentindo. O que está lhe incomodando? Por que isso lhe incomoda? Escreva ou pelo menos tenha um diálogo interno sobre o que aconteceu.
  2. Dê um nome ao sentimento. Medo? Raiva? Dor? Indignação? Frustração? Rejeição? Na dúvida, use um dicionário para encontrar a palavra exata, não trate tudo apenas como tristeza. Quanto mais específico for o termo que você utilizar, melhor.
  3. Não tente suprimir a emoção nem descartá-la. Suprimir ou descartar apenas afasta a emoção momentaneamente ao invés de você processá-la da forma correta. Então, pare e se permita sentir o que for que você estiver sentindo.
  4. Liberte-se do que você sente. Para deixar uma emoção ir embora você precisa, primeiro, reconhecê-la e senti-la sem se deixar levar por ela, ou seja, não deixe que ela controle suas ações. Precisa chorar? Chore, mas não precisa acusar os outros de não entender o que você está passando. Precisa ficar sozinho(a)? Fique, mas não trate mal as pessoas ao seu redor se elas invadirem seu espaço. Peça gentilmente para ser deixado(a) em paz ou vá caminhar.

Você não deve evitar seus sentimentos ruins, deve modificar a forma como os interpreta e como reage. Não é um processo fácil, mas nada que é necessário costuma ser fácil, apenas simples.

3. "Isto também passará"

Abraham Lincoln tinha uma frase favorita: "This too shall pass". Isto também passará.

Quando uma situação ruim acontece, nossa primeira impressão é acreditar que ela é permanente. Perdeu o emprego? Jamais conseguirá um tão bom — se é que vai conseguir algum. Alguém lhe rejeitou? Você nunca mais será amado(a) na vida. Sofrendo de dor física intensa? Terá que conviver com ela pelo resto dos dias.

Mas a verdade reside nas palavras creditadas a Abraham Lincoln: tudo passa.

Lincoln foi presidente dos EUA durante a Guerra Civil Americana, sofria de depressão severa e perdeu toda a sua família. Em nenhum momento ele cedeu ao desespero e esqueceu das suas responsabilidades. Na sua visão, o obstáculo tinha que ser superado em algum momento.

Se ele conseguiu suportar, nós também podemos. Não assuma que é impossível porque você acha difícil, disse Marco Aurélio, mas reconheça que se é humanamente possível, você também pode fazê-lo.

“Tudo o que pode ser evitado, perdido ou coagido não pertence a uma pessoa — mas aquilo que não pode ser impedido pertence.”

— Epicteto

Não podemos impedir os eventos de acontecerem. Não podemos impedir alguém de partir. Não podemos impedir a vida de sabotar nossos planos. Contudo, a capacidade de suportar e tolerar existe e está sempre disponível.

O evento ruim não é o fim do seu mundo. É apenas um momento e ele passará — cedo ou tarde.

. . .

Publicado originalmente no Medium.

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