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Práticas para o autoconhecimento

Estoicismo Prático

Observe a si mesmo

Olhar para dentro de si mesmo é um passo necessário para desenvolver a nossa autoconsciência. Estar autoconsciente é saber como você costuma agir em determinada situação, é entender os seus padrões automáticos, compreender suas habilidades e qualidades e ter conhecimento a respeito de seus vícios e falhas. É apenas a partir do conhecimento de si mesmo que podemos evoluir e viver uma vida boa

Olhar para dentro diz respeito a observar e analisar os nossos próprios pensamentos, ações e comportamentos à medida que eles forem acontecendo. Portanto, é estar completamente consciente de si no momento presente, ao mesmo tempo que você o vive. A autoconsciência é um pré-requisito para a prática do Estoicismo. O Estoicismo é uma escola de filosofia prática. O Estoicismo fornece uma série de técnicas e modelos mentais que permitem diminuir e eliminar todas as emoções negativas, como raiva, medo, ansiedade e insatisfação. É um ciclo virtuoso: enquanto é preciso que se tenha autoconsciência para ser uma pessoa estoica, à medida que você pratica o Estoicismo, você desenvolve autoconsciência.

"Não colocamos à prova as coisas que causam o nosso medo; não as examinamos a fundo; titubeamos e nos retiramos exatamente como soldados que são forçados a abandonar seu acampamento por causa de uma nuvem de poeira levantada pelo estampido do gado, ou são lançados em pânico pela divulgação de algum rumor não autenticado" - Sêneca, Carta 13, Sobre Medos infundados

Práticas para desenvolver autoconsciência

Imagine-se observando você mesmo. Se você pudesse dar um passo para trás e ver você no seu dia-a-dia, o que você observaria? Quais ações você estaria fazendo? Quais pensamentos passariam pela sua mente? Quais emoções estariam tomando conta de você? Caso você pudesse se ver em terceira pessoa, você ficaria feliz com o que veria?

A capacidade de se afastar brevemente de uma situação, sem se ausentar do presente, é o que irá permitir a você lidar com seus pensamentos e tomar boas ações. Com esse momento de pausa e autoanálise, você pode examinar suas ações de forma racional, evitando as emoções ruins, assim, você sai daquele estado de piloto-automático, em que as horas passam sem que você se dê conta.

Quando nos deparamos com qualquer situação, tendemos a reagir, inicialmente, com uma emoção. Quando essa emoção for disparada, você precisa saber que está sentindo ela (seja raiva, alegria, orgulho, medo…). A partir dessa primeira observação, cabe avaliar se aquela emoção está nos favorecendo ou prejudicando diante da situação.

Apenas quando você for capaz de observar, analisar e julgar racionalmente seus próprios pensamentos, é que se tornará capaz de tomar decisões cada vez melhores e mais precisas. Somente assim poderá mudar seu comportamento, e sua vida, para melhor.

"Devemos, portanto, refletir sobre todas as contingências e fortalecer nossas mentes contra os males possíveis" - Sêneca, Carta 91, Sobre a lição a ser aprendida do incêndio de Lião

Assuma a responsabilidade sobre si mesmo

Assumir a responsabilidade sobre sua própria vida, mesmo sabendo que você não controla quase nada que acontece com você, é chave para o autodesenvolvimento. Devemos ser responsáveis por nós mesmos em tudo, porque em cada acontecimento há sempre uma área de controle. Essa área é o nosso julgamento sobre os acontecimentos, e como optamos por responder a ele.

As coisas que dependem de você, seus pensamentos e suas ações são as coisas mais importantes da vida. Donald Robertson disse isso bem em seu livro Stoicism and the Art of Happiness:

“A conclusão de que as coisas mais importantes da vida (nossos pensamentos, ações e julgamentos) estão sob nosso controle direto é, ao mesmo tempo, o aspecto mais difícil e libertador do Estoicismo. Perceber isso nos torna completamente e totalmente responsáveis pelas únicas coisas mais importantes da vida, privando-nos de qualquer desculpa para não alcançarmos a melhor vida possível, porque isso está sempre ao nosso alcance ”.

Não são as situações externas que nos fazem felizes ou miseráveis. São as nossas interpretações sobre essas situações. Assim que passamos a assumir nossa responsabilidade, nós paramos de permitir que fatores externos determinem nosso bem-estar. Assim nos tornamos capazes de expressar o melhor de nós mesmos e, por fim, sermos plenamente felizes.

“Na ocasião de cada acidente (evento) que acontecer com você, lembre-se de voltar-se para si mesmo e indagar-se que poder você tem para transformar o acontecimento para seu uso”- Epicteto, A Arte de viver

Assumir a responsabilidade pelo que ocorre conosco tem outro resultado desejável: nos faz parar de acusar fatores externos como culpados pelo nosso momento atual. Uma vez que fatores externos estão sempre fora do nosso controle, apontá-los como responsáveis pela nossa felicidade ou miséria não gera nada de produtivo.

“As pessoas prudentes enxergam além do incidente em si e procuram criar o hábito de utilizá-lo da maneira mais saudável” - Epicteto, A Arte de viver

Em vez disso, passamos a olhar para dentro. Essa mudança de perspectiva nos ajuda a identificar comportamentos, emoções e características que podem nos ajudar a superar a situação, ou mesmo minimizar qualquer impacto que possa ter na nossa vida.

Quando menos esperamos, após tanto exercitarmos esse fundamento, o que acontece à nossa volta passa a não importar mais tanto assim. Passamos a escolher nossas ações para que estejam sempre alinhadas com nossas virtudes — com o melhor que podemos ser. Sem perceber, quase como de uma hora para outra, estamos agindo mais sábia e serenamente. 

A filosofia estoica nos fornece ideias e práticas de como desenvolver a nossa autoconsciência e assumir a responsabilidade sobre nossos pensamentos e ações - que são âmbitos que podemos controlar.

"Cada dia adquira algo que o fortaleça contra a pobreza, contra a morte, e contra outros infortúnios; e depois de ter examinado muitos pensamentos, selecione um para ser completamente digerido naquele dia" - Sêneca, Carta 2, Sobre a falta de foco na Leitura

Nem sempre trazer as ideias e os conceitos estoicos para o nosso dia a dia é um processo intuitivo. Para mudarmos nossos comportamentos, é necessário termos um profundo entendimento de como pensamos e de como agimos. Para isso, precisamos de uma habilidade de autopercepção bem desenvolvida.

"Examine-se; examine-se e observe-se de várias maneiras; mas antes de tudo diga se é na filosofia ou meramente na própria vida que você fez progresso" - Sêneca, Carta 16, Sobre Filosofia, o Guia da Vida

Uma das melhores formas de desenvolvermos nossa autopercepção é observando e escrevendo sobre nossos pensamentos e comportamentos. Isso nos obriga a olhar para dentro por diversos ângulos, e entender como funcionamos profundamente. É por isso que ter um diário é uma das mais importantes práticas estoicas.

Reflexão diária

Uma das melhores formas de desenvolvermos nossa autopercepção é observar e escrever sobre nossos pensamentos e comportamentos. Isso nos obriga a olhar para dentro por diversos ângulos e de forma racional. 

Você já parou hoje para sentir o vento no seu rosto? Contemplar o calor do sol na pele? Apreciar o perfume de alguém? Sorrir sem motivo? Você realmente viveu o seu dia? Se a resposta para estas e outras  perguntas similares seja "não" por  muitos dias seguidos, você não está  vivendo. Você está assistindo sua vida passar.

Reflexões diárias funcionam como um freio no ritmo de piloto-automático. Exames diários de nós mesmos são uma forma rápida e prática de retomar o controle de si ao longo dos dias.

Diariamente, antes de dormir, pergunte-se:

O que eu fiz de bom hoje?
O que eu poderia ter feito melhor?
O que eu posso fazer amanhã para desenvolver minhas virtudes e exercer a minha melhor versão?

Registrar suas reflexões não é uma obrigação, mas torna o exercício muito mais eficiente. Além das três perguntas apontadas acima, reflita sobre coisas tangíveis para implementar no próximo dia. Algo como: sorrir mais, fazer mais silêncio ou respirar antes de responder uma pergunta. O simples ato de propor a você mesmo ações melhores, ajuda a refletir, no dia seguinte, se você fez ou não aquilo que se propôs. Se sim, quais foram os efeitos em você mesmo? Se não, o que te impediu de colocar em prática?

Esses registros podem servir de referência para você mesmo no futuro para saber o quando você melhorou desde quando começou suas reflexões. As reflexões diárias atuam, principalmente, no desenvolvimento do seu caráter, pois você estará constantemente refletindo sobre como pode agir da melhor e mais virtuosa forma.

"Cessará tua ira e será mais moderada sabendo que diariamente terá de apresentar-se ao juiz. Que há de mais belo que esse costume de examinar todo o seu dia? Que sono é aquele que advém após a inspeção de si, tranquilo, profundo e livre, quando a alma foi elogiada ou advertida e, como um auto-observador e um censor secreto, ela chega ao conhecimento de seus hábitos!" - Sêneca, Sobre a ira

Reconhecer ações boas que você fez, funciona como reforço. O registro dessas ações virtuosas estimulam você a se manter no caminho que você escolheu trilhar. Dessa forma, pode fortalecer a sua integridade como pessoa. Há também fatores positivos em pensar no que pode ser melhorado! Se você conseguir fazer esse processo de apontar as suas falhas e encontrar racionalmente formas de melhorá-las, você começará a direcionar seus próprios pensamentos para oportunidades de aprendizados mesmo em tempos de turbulência. Com isso, você tomará decisões cada vez mais efetivas e melhores. Essa é a rota do auto-desenvolvimento.

"Cada dia adquira algo que o fortaleça contra a pobreza, contra a morte, e contra outros infortúnios; e depois de ter examinado muitos pensamentos, selecione um para ser completamente digerido naquele dia" - Sêneca, Carta 2, Sobre a falta de foco na Leitura

A maneira mais efetiva de realizar essas reflexões é escrevê-las e registrá-las. De preferência, em um lugar que você possa voltar para consultar futuramente. Há várias formas de fazer essa escrita:

  • Grupos de WhatsApp só com você neles (assim você pode também registrar suas reflexões em texto ou em áudio);
  • Bloco de notas do celular (priorize blocos que sejam salvos na nuvem);
  • Caderno de anotações ou diário;
  • Vídeos gravados por você e salvos em um local que você tenha acesso fácil no futuro.

Esse exercício funciona como uma simples e poderosa ferramenta de autoconsciência. Comprometa-se com essas reflexões diárias sobre si mesmo. Assuma a responsabilidade de sua evolução pessoal. Essa prática, por si só, é capaz de trazer resultados expressivos para o desenvolvimento do seu caráter e consequentemente para você tornar a sua vida mais tranquila e feliz.

Por que Marco Aurélio escreveu Meditações?

Marco Aurélio (121 - 180 d.C) - nasceu em 26 de Abril de 121, considerado o último dos cinco bons imperadores romanos. Em sua época, estima-se que 1 a cada 5 pessoas da terra viviam nos domínios de Roma, portanto ele era o homem mais poderoso de seu tempo. Marco não era o herdeiro direto e nunca desejou ser imperador. Considerava essa função como um fardo e preferia dedicar-se à filosofia, especialmente ao Estoicismo, a qual estudava desde a adolescência. Seu caráter excepcional e sua honestidade foram reconhecidas pelo imperador Adriano e posteriormente pelo imperador Antonino Pio, que o adotou. 

Com a morte de seu pai adotivo, ele assumiu a posição de imperador, por acreditar ser seu destino fazê-lo e que poderia promover o bem às pessoas. Ele teve uma vida conturbada com uma série de guerras, doenças, a morte prematura de vários de seus filhos e a peste Antonina, que devastou a população romana. Apesar disso, continuou investindo em seus estudos em filosofia. 

Marco Aurélio, foi a pessoa que mais se aproximou da figura do “Rei filósofo” idealizado por Platão em “A República”. Ele possuía as virtudes de um bom homem e a capacidade de governar com sabedoria. Em seus 19 anos como imperador, deixou um legado para Roma, enquanto esteve vivo, e para a humanidade com sua obra “Meditações”.

Marco Aurélio não escreveu Meditações para as gerações futuras. Apesar de ser um livro que sobreviveu por séculos, Meditações nada mais foi do que o diário do imperador-filósofo. Como diário, sequer tinha um título: o nome original era “Para mim mesmo”, e não “Meditações”.

Marco Aurélio escreveu Meditações para si mesmo. Para se lembrar de lições que não eram intuitivas para ele. Sem ter escrito no seu diário, ele não teria praticado o Estoicismo, e não se tornaria um dos estoicos mais conhecidos até hoje.

Em seu diário, Marco Aurélio escrevia como deveria agir, pensar e trazia citações de outros filósofos, de outras escolas e até mesmo da literatura.

"Que utilidade estou tendo agora para minha alma? Em cada ocasião, eu devo perguntar a mim mesmo esta questão, e investigar para descobrir o que habita a minha mente e que tipo de comportamento a minha alma tem agora" - Marco Aurélio, Meditações, V. 11

Você também pode criar o hábito de escrever um diário filosófico. Assim, você pode manter os seus valores e as suas virtudes em constante vigilância! A prática do exame e da escrita diária sobre si mesmo é uma prática utilizada pelos estoicos como instrumento para uma vida boa!

* Edição por Lina Távora

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