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O Estoicismo como sistema operacional da vida

Marco Brito

Estoicismo é um filosofia antiga. Antes de Jesus, para você ter uma ideia.

O Estoicismo como escola de filosofia foi fundado por Zenão de Cítio. Após ver o navio que o transportava afundar com todos os seus pertences, ele acabou chegando à antiga Atenas, a cidade mais intelectual do mundo antigo — talvez da história como um todo — , e foi exposto à filosofia de Sócrates e, posteriormente, de Crates.

Essas influências mudaram completamente a vida de Zenão, como é de se esperar com todos que se encontram com os ensinamentos de Sócrates.

Foi a partir daí que Zenão criou a escola de filosofia Estoica, que durou por cerca de 300 anos. Apesar da escola, em seu sentido institucional, ter deixado de existir, os ensinamentos Estoicos perduram e ainda são relevantes mais 2000 anos depois.

O significado da filosofia do Estoicismo

Apesar de utilizarmos o termo “sistema operacional” como uma sátira, já que não somos computadores e nossa realidade é mais complexa que a lógica aplicada às máquinas, podemos sim olhar para o Estoicismo como um filtro moral para a vida.

Quando você lê ou ouve o termo filosofia, talvez seus olhos dêem um 360°, porque você pensa em algo chato, teórico e que não tem o potencial de ajudar em nada.

Você já tem problemas demais para se preocupar com a origem do universo.

É aí que os Estoicos divergem: o Estoicismo foi criado por pessoas comuns, para pessoas comuns. Diferente de muitas das outras filosofias, o Estoicismo se volta a perguntas cotidianas, como moralidade, ética e convivência social.

A filosofia Estoica é aplicável para qualquer um, e prova disso é a lista extensiva (e impressiva) de nomes históricos que adotaram o Estoicismo como sua filosofia de vida. Veja alguns:

  • Sêneca: filósofo, político e um dos homens mais famosos da história.
  • Marco Aurélio: imperador de Roma por quase 20 anos, considerado um dos maiores líderes do antigo império.
  • George Washington: um dos fundadores dos Estados Unidos da América e, indiscutívelmente, um dos maiores da história.
  • Nélson Mandela: o homem que venceu o Apartheid, mas não antes de estar encarcerado por 25 anos.

A lista poderia continuar… Bill Gates, Warren Buffett, Presidente Franklin Roosevelt, atletas de renome, empreendedores e autores — algo que todos têm em comum, além do sucesso e suas jornadas, é a utilização do Estoicismo como filosofia de vida, como um sistema operacional.

Principais ideias do Estoicismo

Dicotomia do controle: Foque no que você pode controlar

“A principal tarefa da vida é simplesmente a seguinte: identificar e separar os assuntos para que eu possa dizer claramente a mim mesmo quais são os aspectos externos que não estão sob meu controle e que têm a ver com as escolhas que eu realmente controlo. Onde, então, procuro o bem e o mal? Não para externos incontroláveis, mas dentro de mim para as escolhas que são minhas.”

— Epicteto

Os Estoicos são incisivos quanto a aceitação de tudo que está fora do seu controle. Tudo, portanto, entra em uma das seguintes categorias:

  • posso controlar ou
  • não posso controlar.

Se você pode controlar algo, como, por exemplo, a sua expertise em sua área de atuação profissional, portanto não há motivos para você não estar satisfeito e contente quanto a isso. Se você deseja ser melhor no que faz, simplesmente seja melhor no que faz. Faça mais vezes. Procure quem faz melhor.

Por outro lado, há aspectos da vida que você não pode controlar, como, por exemplo, a sua promoção no trabalho. O seu corpo sendo outro exemplo. Você deve, portanto, aceitar aquilo que lhe é dado sem qualquer ressentimento e/ou ressalva.

Você deve estar dizendo: 

“mas eu tenho controle sobre o meu corpo, sim! É meu! Eu posso comer bem, me exercitar, meditar… tudo isso está sob meu controle e afeta minha forma física.”

E você está certo, você tem controle sobre as suas escolhas, e suas escolhas irão certamente influenciar o resultado final de forma ou de outra. No entanto, assim como você é responsável por aquilo que diz, mas não por aquilo que as pessoas entendem, você não é responsável pelo resultado dos esforços quanto ao seu corpo — e na sua vida, para o que importa.

Você pode cuidar do seu corpo com o maior dos apreços, e ainda assim se deparar com câncer. Ou com um ataque-cardíaco. Ou envelhecimento. Ou, pior ainda, mas inevitavelmente, a morte. Você não pode evitar a morte, e não importa quantas vitaminas você tome por dia.

Por isso os Estoicos nos aconselham a não nos preocuparmos, ou não termos sentimentos atrelados, ao resultado; e sim as nossas escolhas, a tudo que podemos controlar.

Amor Fati: Ame o seu destino

Essa ideia de aceitação daquilo que não se pode controlar não é exclusiva dos Estoicos, entretanto.

Nietzsche, um dos mais influentes filósofos da história, cunhou o termo:

“Minha fórmula para a grandeza em um ser humano é amor fati: que ninguém queira que nada seja diferente, nem para a frente, nem para trás, nem para toda a eternidade. Não basta suportar o necessário, escondê-lo ainda menos — todo idealismo é mentira diante do necessário — mas amá-lo.”

Amor fati é uma expressão do latim que pode ser traduzida para “amor ao destino”. Ou, trazendo para termos mais práticos, “a aceitação entusiástica de tudo que possa vir a acontecer”.

A premissa fundamental dessa crença é, assim como pontuado anteriormente, a aceitação dos acontecimentos assim como eles são e não como você deseja que eles sejam.

A infelicidade é causada pela expectativa.

Quando você não tem qualquer expectativa quanto ao destino, você cria uma aceitação que serve como escudo para toda e qualquer decepção. Você já não espera que os fatos se desenrolem de uma maneira específica. Opostamente, você dá as boas-vindas e abraça o destino, seja ele qual for.

Isso não é para desencorajá-lo de perseguir os seus sonhos. Opostamente, a ideia propõe que em sua busca por seus sonhos algumas coisas não irão se sair assim como você deseja, e tá tudo bem. Se você não pode controlar, logo, não se preocupe.

Memento Mori: Lembre-se que você irá morrer

“Vamos preparar nossas mentes como se tivéssemos chegado ao fim da vida. Não adiamos nada. Vamos equilibrar os livros da vida todos os dias … Aquele que dá os retoques finais em sua vida todos os dias nunca teme a falta de tempo.”

— Sêneca

Memento mori é outro conceito recorrente nos livros dos Estoicos. O termo, de forma literal, significa “lembre-se que você irá morrer”. Pode parecer um tanto quanto mórbido, e é mesmo. O imperador Marcus Aurelius explica:

“Você poderia deixar a vida agora. Deixe que isso determine o que você faz, diz e pensa.”

Portanto a ideia de lembrar-se da morte é um aviso para que você viva uma vida que tenha significado. Você não irá viver pra sempre, portanto, logicamente, não faz qualquer sentido você se comportar como se fosse.

E memento mori não é uma adição ao conhecido “carpe diem”. Carpe diem significa “aproveitar o momento”, mas não te dá instruções sobre como fazer isso. Memento mori é um grito pelo que faz sentido, por uma vida que vale a pena ser vivida.

Pense em Marcus Aurelius, Nelson Mandela, Gandhi e tantos outros nomes que adotaram a filosofia Estoica quando for criar uma linha de comparação para uma vida que faz sentido.

As virtudes Estoicas

Seria impossível explicar toda uma filosofia desenvolvida por dois milênios em apenas um artigo, mas você entende o ponto. Espero os argumentos acima tenham acendido uma faísca de curiosidade que possa te sugar para os ensinamentos da filosofia Estoica.

No entanto, antes de fechar a página e ir buscar um café, eu só queria te contar sobre as 4 virtudes Estoicas. Aliás, “as 4 virtudes cardinais da filosofia Grega”, que os Estoicos adotaram.

As virtudes funcionam como mandamentos, um guia moral a ser seguido. Não entrarei em detalhes aqui em cada uma delas por fim de brevidade, mas posso te encorajar a ler mais sobre o assunto e descobrir em primeira mão o que elas significam. As virtudes são:

  • Sabedoria
  • Justiça
  • Disciplina
  • Coragem

Sabe, para os Estoicos essas 4 virtudes cardinais serviam como um código de ética que, caso não fosse seguido, seria abdicar da “boa vida”. Boa vida sendo a vida de acordo com a natureza. Os Estoicos estressam esse ponto com certa repetitividade.

Cada uma das 4 virtudes engloba um aglomerado de ensinamentos, portanto eu te encorajo demais a ir à procura dessa sabedoria. Talvez farei outro artigo sobre isso.

Independente da categoria social que você se encontra hoje, seja empreendedor, empregado, desempregado, velho, novo, negro, branco, pobre, rico ou qualquer outra; você poderá se beneficiar da adaptação da filosofia Estoica como um estilo de vida. 

Ter o Estoicismo como um "sistema operacional na vida", no sentido de servir como base para tomada de decisões, traz ordem em um mundo caótico.

Te aconselho a começar com o livro Cartas de um Estoico, do Sêneca. Daí em diante sua visão da boa vida poderá ser diferente, quem sabe até mais natural.

. . .

Publicado originalmente no Medium.

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