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A única certeza da vida: tudo vai dar errado

Sabrina Andrade

Uma CEO convoca seus funcionários para uma reunião importante.

Ela chega na sala de reuniões e diz:

“O projeto novo deu errado, o que faremos agora?”

Os funcionários reagem:

“Como assim? O projeto ainda nem foi lançado, como ele já deu errado? Que merda é essa?”

O que ela está fazendo é um exercício de premortem.

Em 1989, um estudo feito por Deborah Mitchell afirmou que imaginar que um evento futuro já aconteceu aumenta em 30% as chances de identificar corretamente o que gerou os resultados.

O psicólogo Gary Klein levou esse estudo mais além ao desenvolver a técnica “Project Premortem”.

Conhecendo a causa *antes* da morte

Uma das verdades da vida é: tudo vai dar errado. Mas por quê? Por que a Lei de Murphy é tão real?

A explicação é simples: as pessoas desconsideram os piores casos na hora de fazer planejamentos. Somos estúpidos o suficiente para ignorar a imprevisibilidade dos eventos externos e achar que tudo vai acontecer como desejamos.

Os planos são feitos pensando que as coisas vão acontecer no tempo correto e dentro do orçamento (mesmo que o senso comum diga o contrário e as boas práticas de gerenciamento de projetos falem de contingências). Como consequência, as coisas dão errado e o que sobra é a análise postmortem.

Quando analisamos as causas que contribuíram para que um projeto desse errado, estamos conduzindo uma análise postmortem — também conhecida como autópsia. Análise premortem é o oposto: você analisa as possíveis causas da morte antes que elas aconteçam.

Gary Klein popularizou a técnica premortem que agora é usada em diversas empresas e foi destaque na Harvard Business Review, mas a origem dela é muito mais antiga: remonta aos tempos dos filósofos romanos, e tinha o nome de praemeditatio malorum — meditação sobre os males futuros. Ou como o Tim Ferris gosta de chamar: pessimismo prático.

Praemeditatio malorum: antecipando as coisas ruins

Segundo Epicteto, filósofo Estoico, problemas podem ser superados ao anteciparmos os possíveis contratempos.

Sêneca, outro filósofo Estoico, escreveu para um amigo:

“Nada que acontece ao homem sábio vai contra as suas expectativas, (…) e nem todas as coisas acontecem da forma como ele desejou, mas como ele as reconheceu — e acima de tudo, ele reconheceu que algo pode atrapalhar os seus planos.”

É possível imaginar Sêneca refletindo e escrevendo todos os dias sobre as tempestades que ele poderia enfrentar e como reagiria a elas. Ao praticar a visualização negativa, ele estava preparado para o que pudesse acontecer. E sendo parte da corte de Calígula e depois de Nero, a possibilidade de ser condenado à morte era uma companhia constante, tornando o exercício essencial.

Quando Nero ordenou que Sêneca se suicidasse, segundo relatos, ele cumpriu a ordem com a mesma calma que mantinha em relação a assuntos cotidianos — ele já havia se preparado para isso.

Segundo pesquisas, o exercício Estoico realmente funciona: realizar uma simulação mental (visualizar o início, os obstáculos e o resultado final) diminui a ansiedade, melhora a habilidade de fazer planejamentos, reforça as conexões entre pensamento e ação e aumenta a probabilidade de atingir o objetivo.

Em outras palavras, pensar no processo (como eu vou fazer isso?) é mais eficaz do que pensar no resultado (o que eu espero conseguir?).

Nas empresas, gerentes pedem aos funcionários para listar todas as possíveis causas de morte para um projeto e depois as possíveis soluções para cada caso. Da mesma forma, também testam ideias ao imaginar os resultados ruins que podem ser gerados e os problemas que elas podem trazer. Basicamente, existe alguém que bombardeia uma ideia que parece ótima para trazer os pontos cegos à tona.

Esse mesmo princípio pode ser trazido para os problemas do dia-a-dia. O que pode dar errado hoje? O que vai dar errado hoje? Quais os possíveis obstáculos que enfrentarei: trânsito, um cliente irritado, minha chefe de mau humor, meu gato arranhando o sofá ou um cachorro me perseguindo? Se isso acontecer, como eu posso superar o problema ou que rota alternativa eu posso tomar?

Refletindo sobre os possíveis resultados ruins, você pode definir formas para minimizar os efeitos ou evitar completamente as causas.

“Eu perdi todo o meu dinheiro, o que eu farei agora?”

“Fui demitida(o) do emprego, qual o meu próximo passo?”

“Cheguei atrasado para a entrevista de emprego, o que posso fazer agora ou como poderia ter evitado isso?”

“O novo projeto da empresa falhou completamente, o que podemos fazer?”

“O melhor programador da equipe pediu demissão, como podemos dar continuidade ao projeto ou como podemos fazê-lo mudar de ideia?”

“O investidor retirou todo o dinheiro do projeto, como continuaremos? Como encontraremos outro financiamento?”

Impedindo a auto-sabotagem: abordagem if/else

Praemeditatio malorum também pode ser aplicado para impedir que você cometa auto-sabotagem e finalize seus projetos.

Segundo integrantes das Forças de Operações Especiais da Marinha Americana (SEALs), a maioria das pessoas desiste de um objetivo ou projeto antes de chegar a 40% da sua capacidade. Exato, você não chega a 50% do que é capaz de fazer e desiste achando que não consegue.

Quando as coisas ficam difíceis e encontramos muitos obstáculos, nosso cérebro entra em desespero e começa a desejar dopamina. Como consequência, comemos motivados pelo estresse ou perdemos tempo vendo notificações de redes sociais ou vídeos de gatinhos.

Ao antecipar obstáculos, podemos criar um plano que nos impedirá de desistir antes da hora. Para isso, criamos planos if this then that. Em computação a lógica if-else é uma das mais básicas: se isso acontecer, faça isso; senão, faça aquilo. Simples, mas eficaz.

Segundo pesquisas, até mesmo crianças são capazes de definir planos if/else para superar obstáculos e melhorar o desempenho na escola, logo, você não tem desculpa.

Atletas também fazem uso de condições previamente definidas para não desistir antes da hora. Um corredor pode definir que só irá desistir do treino em um determinado dia se ele ficar tão cansado que não consegue mais enxergar direito. Você pode fazer o mesmo, e não precisa ser algo tão trágico.

Você quer escrever um livro, mas durante vários dias senta na frente de uma página em branco e não escreve uma palavra. Então, você desiste, ao invés de montar um plano anti-auto-sabotagem: “se eu escrever 1.000 palavras hoje, eu dou o dia como encerrado.”

Hoje você pode dar a tarefa como encerrada se alcançar o limite que definiu, caso contrário, você tem que continuar encarando a folha. Stephen King não sai do escritório enquanto não escreve as 2.000 palavras diárias que definiu.

Nós temos capacidade de conseguir boa parte das nossas metas, mas, para isso, precisamos definir os casos que nos levarão a desistir ou parar por um tempo — enquanto não acontecerem, desistir não é opção.

E se nada puder ser feito a respeito do pior caso?

“Quanto maior a dificuldade, maior a glória em superá-la. Pilotos habilidosos ganham sua reputação nas tempestades e tormentas.”

― Epicteto

Certas coisas não podem ser evitadas. Neste caso, os Estoicos usam o praemeditatio malorum como um exercício de sabedoria: para aceitar o que não está em seu poder e aprender a controlar as expectativas (a disciplina conhecida como Vontade ou a Arte da Aquiescência).

O mundo externo não está em nosso controle. Logo, imprevisibilidade é algo inerente a qualquer plano. Nem sempre vamos receber o que achamos que devemos receber — o mundo não é justo — e nos agarrar a resultados que não sabemos se iremos conseguir é loucura.

A única coisa que está em nosso controle são nossas escolhas.

. . .

Publicado originalmente aqui.

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