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Uma noite mal dormida

Mateus R. Carvalho

Hoje eu me deitei para dormir às 21h25.

Dormir bem é uma das minhas prioridades desde o começo do ano.

Nos últimos meses, investi horas e horas lendo livros e ouvindo podcasts para aprender como dormir melhor. 

Aprendi que uma noite bem dormida melhora e muito a capacidade de aprendizado, aumenta energia para o dia seguinte e permite uma melhor recuperação física. 

Passei meses mudando meus hábitos para conseguir o sono perfeito:

  • Passei a dormir entre 20h30 e 21h30, e acordar entre 5h30 e 6h30.
  • Removi completamente o álcool e a cafeína da minha vida.
  • Comecei a usar máscaras noturnas e protetores auriculares para evitar que luz e ruídos tornassem meu sono menos profundo.

Por dar muita importância para estas 9 horas diárias, é comum eu me sentir frustrado quando, por qualquer motivo, não consigo aproveitá-las bem.

E isso é um problema.

Afinal, a frustração atrapalha o sono.

Para dormir, é preciso ter a mente calma e tranquila. Ao me sentir frustrado por não ter conseguido dormir, estou criando um impedimento para a minha tranquilidade mental. Por consequência, este é também um impeditivo para um sono de qualidade.

Esse problema ficou muito claro hoje.

Logo após ter ido dormir, comecei a me sentir incomodado com o barulho da rua. Para piorar, hoje foi o dia em que esqueci de comprar novos protetores auriculares. 

Minutos depois, comecei a sentir meu nariz congestionado. Quando isso acontece, minha dificuldade de respirar me gera uma frustração que nunca aprendi a lidar bem.

Após ter ficado rolar por 2 horas na cama frustrado, ficou claro para mim o que aconteceu.

Por isso, às 23h39, poucas mais de 2 horas depois de ter ido para a cama, desisti de tentar dormir e comecei a escrever estas palavras que você está lendo agora.

O problema hoje claramente não foi o barulho da rua ou a minha dificuldade de respirar.

O problema foi que, após ter melhorado meus hábitos relacionados ao sono, criei a expectativa de que sempre teria uma noite de sono perfeita.

É muito claro o quão errada é essa expectativa olhando para situação em terceira pessoa:

O fato de eu estar com nariz congestionado, e isso me atrapalhar dormir, por exemplo, é algo que eu tenho pouquíssimo controle a respeito. 

Até consigo tomar alguma ação para evitar ou minimizar o incômodo de situações similares no futuro. Mas, uma vez que o problema existe no presente, não há nada que eu possa fazer para resolvê-lo imediatamente.

Se eu não controlo totalmente o fato de estar com dificuldades para dormir, porque eu estava frustrado com isso? 

Como esta frustração iria me ajudar a dormir melhor? O quanto isso faria o meu dia seguinte melhor?

Acabar com uma frustração não se trata de mudar um evento conforme seu desejo, mas sim de mudar sua percepção sobre o evento. A frustração é um sentimento inútil. Sentir frustração com o fato de haver barulho na rua é como sentir frustração sobre o fato de o dia estar chuvoso.

Se não tenho controle sobre a situação externa, ela não é boa nem ruim. Esta é uma lição básica do Epicteto que, hoje, eu demorei para me lembrar.

Se dormir com facilidade não está sob meu controle, por que eu perderia tempo me frustrando por isso? Se estiver sob meu controle, por que eu perderia meu tempo me frustrando ao invés de simplesmente agir para garantir uma boa noite de sono?

Acabar com essa frustração não se trata de encontrar uma solução mágica para dormir bem. Mas sim de separar a situação (ou seja, o barulho na rua e a minha respiração ruim) do meu julgamento da situação (ou seja, a frustração devido ao barulho e à dificuldade de respirar).

Ao diferenciar a situação do meu julgamento sobre ela, é simples perceber que o sofrimento não surge da situação em si, mas sim da minha interpretação. Afinal, se não tenho controle sobre a situação, como comentei, ela não é boa ou ruim, apenas indiferente.

Nas palavras de Epicteto (ou, ao menos, das anotações do Arriano):

“Se você está sofrendo por causa de algo externo, saiba que não é este algo que te perturba, mas o seu próprio julgamento sobre ele. E está sob seu poder mudar seu julgamento agora.”

Se Epicteto estivesse aqui, ele me diria que essa é uma ótima oportunidade para treinar minha capacidade de dormir mesmo em situações adversas:

“Não espere que as situações aconteçam como você deseja. Deseje que as situações aconteçam como aconteceram, e você terá tranquilidade.”

Qual é o propósito de estudar o Estoicismo se não para aprender a lidar com situações adversas?

Situações adversas, por menores que sejam, sempre irão existir.

É exatamente por elas existirem que eu me desenvolvo e estudo a filosofia Estoica.

Caso adversidades fossem evitáveis, o estoicismo não precisaria existir.

Portanto, não há como amar a filosofia Estoica também sem amar as adversidades.

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