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Sêneca: um médico da alma

Lina Távora

Lucius Annaeus Sêneca, conhecido como Sêneca, o Jovem ou simplesmente Sêneca, nasceu por volta de 4 a.C. na atual Espanha, em Córdoba, e foi criado em Roma. Ele morreu em 65 d.C. Era de uma família muito rica, que foi para Roma quando ele e seus dois irmãos, Novato e Mela, eram crianças. Talvez por motivos de saúde, Sêneca transferiu-se, por volta de 20 d.C., para Alexandria, no Egito, de onde retornou em 31. 

Por Calígula, foi condenado à morte, mas conseguiu ter a pena relevada possivelmente por alegarem que sua doença pulmonar o levaria ao falecimento em breve. Com a morte de Calígula, é acusado por Messalina, a mulher do imperador Cláudio. Por intervenção do próprio imperador, a pena foi o exílio - e não a morte. O afastamento de Sêneca durou oito anos, na ilha de Córsega. Após a morte de Messalina (48 d.C.), a nova esposa de Cláudio, sua sobrinha Agripina, possibilitou o retorno de Sêneca, em 49 d.C., e o instituiu como preceptor de seu filho Nero, então com 12 anos. Em 54, com a morte de Cláudio, Nero torna-se o imperador e Sêneca tornou-se o seu conselheiro. No início de 65, Sêneca foi apontado entre os participantes de uma trama para derrubar Nero. Condenado à pena capital, morreu em 19 de abril (José Eduardo Lohner, na introdução de Sobre a ira/Sobre a tranquilidade da alma).

Uma das muitas facetas mais interessantes de Sêneca é que ele soube navegar em diversas áreas, e levar sua escola filosófica para os diferentes âmbitos de sua vida. Sêneca participou ativamente da vida política do Império Romano, tendo uma existência movimentada e produtiva em diversas áreas. Sêneca foi um dramaturgo de sucesso, uma das pessoas mais ricas de Roma, estadista famoso e conselheiro do imperador. Na escrita, foi prolífico, escrevendo cartas, tratados, poemas e peças de teatro. Com todas essas frentes e interesses, o filósofo buscava a razão e a harmonia entre o que aprendia e como agia.

“Eu gostaria de ter tal qualidade como esta para minha mente; ela deve ser equipada com muitas artes, muitos preceitos e padrões de conduta tomados de muitas épocas da história; mas tudo deve misturar harmoniosamente em um todo” – Senêca

Ele não "filosofava" de uma maneira desconectada da realidade. Muito pelo contrário, como uma marca da escola estoica, Sêneca participava da vida pública, testando o Estoicismo no seu dia a dia. Além disso, teve que enfrentar o exílio, problemas de saúde e por fim a condenação por Nero à morte por suicídio. Filosofia e vida assim eram uma coisa só, como deve ser, e ele a seguiu com seus erros e acertos, mas de toda forma tornando-se referências e autores mais fortes do Estoicismo. 

"Sêneca sempre esteve em contato com a dor, o que lhe dava uma aparência doentia, especialmente devido à asma, de que padecia desde a infância. De fato, ele chegou a escrever que a única coisa que o impedia de cometer suicídio era o mal que sua morte podia causar a seu pai. E foi justamente sua saúde precária que o pôs em contato, desde muito jovem, com a ânsia por estudar filosofia, refletindo sobre os porquês da existência. Ao entrar na idade adulta, Sêneca ficou prostrado durante muito tempo na cama devido a uma tuberculose, que desgastou ainda mais seu frágil corpo. Mais tarde se casou e teve um filho, que faleceu precocemente. Ainda assim, conseguiu se recuperar e se tornou um reconhecido escritor e o mais brilhante orador de todo o Senado romano" - Clay Newman, em Mais Sêneca, menos Prozac

Cartas de um estoico: as 124 cartas para Lucílio

Muitos dos ensinamentos de Sêneca que chegaram até nós são por meio das cartas a Lucílio (Epistulae Morales ad Lucilium). As 124 cartas – que temos acesso hoje – foram escritas por Sêneca em seus anos de aposentadoria e trazem lições estoicas, na grande maioria das vezes, de forma acessível e compreensível. As “Cartas de um estoico” foram escritas aproximadamente de 63 a 65 dC.

As cartas tinham o objetivo de aconselhar o seu amigo Lucílio a se tornar uma pessoa e um estoico melhor. Presumidamente, Lucílio era procurador da Sicília, era assim um funcionário da Roma Antiga. Para Luís André Nepomuceno:

“[As cartas] procuravam dissuadir Lucílio da escola epicurista, sua formação inicial, e encorajá-lo nos preceitos do estoicismo. Tanto que Sêneca, nos três primeiros livros de seu epistolário, procurou referências e reflexões no próprio Epicuro, citando-lhe as máximas e sentenças morais, como forma de conquistar a simpatia de seu interlocutor”.

As cartas iniciam com a expressão Seneca Lvcilio svo salvtem, Saudações de Sêneca a Lucílio, e terminam com Vale, que muito frequentemente é traduzido como adeus, passe bem, até logo, ou mantenha-se forte.

O recurso linguístico por meio de cartas para descrever e organizar a sua visão do Estoicismo torna acessível a construção do tema, buscando primordialmente a interação, a compreensão e a troca de informações. Assim, mesmo que algumas cartas de Sêneca sejam mais difíceis de assimilar (pode-se pensar também nas inúmeras traduções a partir do original), é impressionante como esses escritos parecem contemporâneos e nos fazem relacionar de forma fácil com os temas abordados. 

"Prefiro que minhas cartas sejam exatamente o que seria a minha conversa, se você e eu estivéssemos sentados na companhia um do outro ou caminhando juntos, espontâneos e tranquilos; pois minhas cartas não têm nada de tenso ou artificial nelas"– Sêneca, Carta LXXV, Sobre as doenças da alma

Quem escreve cartas, escreve com intimidade. Cartas possuem um remetente e um destinatário, viajam no tempo e no espaço, e persistem como uma forma de comunicação afetiva. 

"Sempre que suas cartas chegam, imagino que estou com você, e tenho a sensação de que estou prestes a falar a minha resposta, em vez de escrevê-la" – Sêneca, Carte LXVII, Sobre a doença e a resistência ao sofrimento

A carta, mesmo com o seu destinatário, é um exercício pessoal de escrita, de análise, de mergulho sobre as questões dos outros, mas que nos prepara para quando situações semelhantes nos forem apresentadas (uma forma de premeditatio malorum). Ao falar para o outro, damos conselhos para nós mesmos também.

Para diana klinger, no livro Escritas de si a carta: 

"torna o escritor ‘presente’ para aquele a quem a envia. Escrever é ‘se mostrar’, se expor. De maneira que a carta, que trabalha para a subjetivação do discurso, constitui ao mesmo tempo uma objetivação da alma. Ela é uma maneira de se oferecer ao olhar do outro: ao mesmo tempo opera uma introspecção e uma abertura ao outro sobre si mesmo". 

Cartas de um estoico: lista completa

Uma forma prática de manter o estudo do Estoicismo de forma consistente é separar uma carta de Sêneca para ler por dia. Não se preocupe em lê-las com rapidez, mas tente digerir todo o conhecimento que aquela missiva entrega ao seu destinatário, que agora pode ser cada um de nós.

Confira a lista das 124 cartas de Sêneca para Lucílio:

  • I.  Sobre aproveitar o tempo 
  • II.  Sobre a falta de foco na Leitura 
  • III.  Sobre a verdadeira e falsa amizade 
  • IV.  Sobre os Terrores da Morte 
  • V.  Sobre a virtude do Filósofo 
  • VI.  Sobre Compartilhar Conhecimento 
  • VII.  Sobre multidões 
  • VIII.  Sobre o isolamento do filósofo 
  • IX.  Sobre Filosofia e Amizade 
  • X.  Sobre viver para si mesmo 
  • XI.  Sobre o rubor da modéstia 
  • XII.  Sobre a Velhice 
  • XIII.  Sobre Medos infundados 
  • XIV.  Sobre as razões para se retirar do mundo 
  • XV.  Sobre força bruta e cérebros 
  • XVI.  Sobre Filosofia, o Guia da Vida 
  • XVII.  Sobre Filosofia e Riquezas 
  • XVIII.  Sobre Festivais e Jejum 
  • XIX.  Sobre Materialismo e Retiro 
  • XX.  Sobre praticar o que se prega 
  • XXI.  Sobre o reconhecimento que meus escritos o trarão 
  • XXII.  Sobre a Futilidade de Meias Medidas 
  • XXIII.  Sobre a verdadeira alegria que vem da filosofia 
  • XXIV.  Sobre o desprezo pela morte 
  • XXV.  Sobre a Mudança 
  • XXVI.  Sobre a velhice e a morte 
  • XXVII.  Sobre o Bem que permanece 
  • XXVIII.  Sobre Viajar como cura para o descontentamento 
  • XXIX.  Sobre evitar ajudar os não interessados 
  • XXX.  Sobre Conquistar o Conquistador (a morte) 
  • XXXI.  Sobre o canto da Sereia 
  • XXXII.  Sobre progresso 
  • XXXIII.  Sobre a Futilidade de aprender axiomas 
  • XXXIV.  Sobre um aluno promissor 
  • XXXV.  Sobre a Amizade entre Mentes Semelhantes 
  • XXXVI.  Sobre o Valor da Aposentadoria 
  • XXXVII.  Sobre a lealdade à virtude 
  • XXXVIII.  Sobre o Ensinamento Tranquilo 
  • XXXIX.  Sobre Aspirações Nobres 
  • XL.  Sobre o estilo apropriado para o discurso de um filósofo 
  • XLI.  Sobre o Deus dentro de nós 
  • XLII.  Sobre Valores 
  • XLIII.  Sobre a Relatividade da Fama 
  • XLIV.  Sobre Filosofia e Pedigrees 
  • XLV.  Sobre Argumentação sofística 
  • XLVI.  Sobre um novo livro de Lucílio. 
  • XLVII.  Sobre mestre e escravo 
  • XLVIII.  Sobre trocadilhos como Indigno ao Filósofo 
  • XLIX.  Sobre a brevidade da vida 
  • L.  Sobre nossa cegueira e sua cura 
  • LI.  Sobre Baiae e a moral 
  • LII.  Escolhendo nossos professores 
  • LIII.  Sobre as falhas do Espírito 
  • LIV.  Sobre asma e morte 
  • LV.  Sobre a Vila de Vácia 
  • LVI.  Sobre silêncio e estudo 
  • LVII.  Sobre as provações de viagem 
  • LVIII.  Sobre Ser, Existir e Eutanásia 
  • LIX.  Sobre prazer e alegria 
  • LX.  Sobre Orações Prejudiciais 
  • LXI.  Sobre encontrar a morte alegremente 
  • LXII.  Sobre boa companhia 
  • LXIII. Sobre a dor de um amigo perdido
  • LXIV.  Sobre a tarefa do Filósofo 
  • LXV.  Sobre a Primeira Causa (Deus)
  • LXVI.  Sobre vários aspectos da virtude 
  • LXVII.  Sobre a doença e a resistência ao sofrimento 
  • LXVIII.  Sobre Sabedoria e Aposentadoria 
  • LXIX.  Sobre estar quieto e Inquietação 
  • LXX.  Sobre o momento adequado para fazer a derradeira viagem 
  • LXXI.  Sobre o Bem Supremo 
  • LXXII.  Sobre os negócios como inimigo da filosofia 
  • LXXIII.  Sobre Filósofos e Reis 
  • LXXIV.  Sobre a Virtude como Refúgio de Distrações Mundanas 
  • LXXV.  Sobre as Doenças da Alma 
  • LXXVI.  Aprendendo Sabedoria na Idade Avançada 
  • LXXVII.  Sobre Tomar a própria vida 
  • LXXVIII.  Sobre o Poder Curativo da Mente 
  • LXXIX.  Sobre as Recompensas da Pesquisa Científica
  •  LXXX.  Sobre Decepções mundanas 
  • LXXXI.  Sobre Favores e sua Retribuição 
  • LXXXII.  Sobre o medo natural da morte 
  • LXXXIII.  Sobre a embriaguez 
  • LXXXIV.  Sobre recolher ideais 
  • LXXXV.  Sobre Silogismos Vazios 
  • LXXXVI.  Sobre a Vila de Cipião 
  • LXXXVII.  Alguns argumentos em favor da vida simples 
  • LXXXVIII.  Sobre estudos liberais e vocacionais 
  • LXXXIX.  Sobre as Partes da Filosofia 
  • XC.  Sobre o papel da Filosofia no Progresso do Homem 
  • XCI.  Sobre a lição a ser aprendida do incêndio de Lião 
  • XCII.  Sobre a vida feliz
  • XCIII.   Sobre a Qualidade da Vida quando contrastada com seu Comprimento 
  • XCIV.    Sobre o Valor do Conselho 
  • XCV.  Sobre a Utilidade dos Princípios Básicos 
  • XCVI.    Sobre o enfrentamento de dificuldades 
  • XCVII.   Sobre a Degeneração da Época 
  • XCVIII.  Sobre a inconstância da fortuna 
  • XCIX.    Sobre consolo a quem se encontra em luto 
  • C.    Sobre os escritos de Fabiano 
  • CI.   Sobre a Futilidade do Planejamento prévio 
  • CII.  Sobre as indicações de nossa imortalidade 
  • CIII.    Sobre os perigos da associação com nossos próximos 
  • CIV.  Sobre o cuidado com a saúde e a paz mental 
  • CV.   Sobre enfrentar o mundo com confiança e a Paz de espírito 
  • CVI.  Sobre a Corporeidade da Virtude 
  • CVII.    Sobre a Obediência à Vontade Universal 
  • CVIII.   Sobre as abordagens da filosofia 
  • CIX.  Sobre a associação com Homens Sábios 
  • CX.   Sobre verdadeiras e falsas riquezas 
  • CXI.  Sobre a futilidade da Ginástica Mental (sofismas) 
  • CXII.    Sobre Reformar Pecadores Contumazes 
  • CXIII.   Sobre a vaidade da Alma e seus Atributos 
  • CXIV.    Sobre o estilo como um espelho do caráter 
  • CXV.  Sobre as Bênçãos Superficiais 
  • CXVI.    Sobre autocontrole 
  • CXVII.   Sobre Filosofia Real ser superior as Sutilezas Silogísticas 
  • CXVIII.  Sobre a Futilidade da busca de Cargos 
  • CXIX.    Sobre a Natureza como nossa melhor Fornecedora 
  • CXX.  Mais sobre Virtude 
  • CXXI.    Sobre o Instinto em Animais 
  • CXXII.   Sobre a escuridão como um véu para a maldade
  • CXXIII.  Sobre o Conflito entre Prazer e Virtude 
  • CXXIV.   Sobre o verdadeiro Bem como alcançado pela Razão
"Esse filósofo foi, antes de mais nada, um médico da alma. Um dos primeiros no Ocidente. Sua especialidade era curar uma doença espiritual muito comum em sua época, denominada 'sofrimento'. Não em vão, ele foi especialista em enfrentar e superar situações adversas e complicadas" Clay Newman, em Mais Sêneca, menos Prozac

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